Vitória de Lula: por que faz sentido cripto ganhar espaço na sua carteira nos próximos anos
Pedro Fontes, Analista de Research do Mercado Bitcoin
Com a vitória neste domingo, Luiz Inácio Lula da Silva conquista um feito inédito: é o primeiro candidato desde a redemocratização a vencer a eleição presidencial depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar, e inicia em 2027 seu quarto mandato. Na visão do mercado, o principal desafio será recuperar a confiança de que o governo vai enfrentar o problema fiscal. Isso passa por um arcabouço crível e respeitado na prática, por medidas concretas para frear a alta da dívida, que chegou a 82,9% do PIB em agosto, e por uma inflação de volta à meta de 3% (com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%), condição para abrir espaço a juros menores, próximos do patamar ideal em torno de 8%. Enquanto essas respostas não chegam, o investidor precisa de uma carteira preparada para um caminho incerto, e é justamente neste cenário que cripto se torna uma peça cada vez mais relevante.
O tamanho desse desafio, porém, ainda gera dúvidas. Três medidas anunciadas nas últimas semanas, o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, o Desenrola 3.0 e a proibição das bets, somam até R$ 43 bilhões em gastos novos e arrecadação perdida, segundo os números oficiais. É mais de quatro vezes a folga de R$ 10,1 bilhões que o projeto de Orçamento de 2027 tinha sobre o centro da meta fiscal, o que obriga o governo a remanejar despesas ou buscar novas receitas; a equipe econômica afirma que fará isso sem descumprir as regras fiscais. Ao mesmo tempo, o espaço para aumentar impostos é limitado, já que a carga tributária elevada foi um dos fatores de desgaste do terceiro mandato. Somado a um índice de rejeição alto logo de partida, esse quadro torna as medidas necessárias ainda mais difíceis de executar. Para quem investe, isso reforça a lógica de não depender só do real: o Bitcoin, por exemplo, segue regras de emissão fixas, que nenhum orçamento ou decisão de governo consegue alterar.
A governabilidade é outro ponto de atenção. O PL, principal partido de oposição, elegeu 121 deputados e terá 28 senadores a partir de 2027, as maiores bancadas das duas Casas, em um Congresso mais inclinado à direita. Além disso, o debate sobre segurança jurídica e o protagonismo do Supremo Tribunal Federal segue no radar de investidores estrangeiros e também gera desconforto internamente. Mesmo que o quarto mandato seja conduzido com muita prudência, o investidor atento deve, no mínimo, reconhecer esses riscos e buscar ativos menos expostos a eles, como os criptoativos, negociados globalmente, 24 horas por dia e sem dependência direta de Brasília para sua formação de preço.
Para o bolso do investidor, a primeira reação tende a ser de alta forte do dólar e dos juros de longo prazo. Como Flávio Bolsonaro foi visto desde o primeiro turno como leve favorito, o mercado alimentou a expectativa de uma mudança de governo que prometia solucionar a questão fiscal, e a frustração dessa hipótese costuma ser precificada como risco. Nesse cenário de câmbio mais pressionado, as stablecoins, como USDT e USDC, são uma forma simples de dolarizar parte do patrimônio, a qualquer hora e a partir de valores baixos. E como a expectativa é de cortes de juros menores e mais lentos, a renda fixa digital do MB, com opções atreladas ao CDI e prefixadas, tende a seguir pagando taxas atrativas por mais tempo.
O outro lado dessa moeda é o custo para a economia. Na leitura do mercado, a ampliação dos gastos públicos nos últimos anos ajudou a sustentar o crescimento, e o FMI projeta que o Brasil volte a ser a oitava maior economia do mundo em 2027, posição que não ocupava desde 2017. Os juros altos que vieram junto desse processo, porém, começam a cobrar a conta: o próprio FMI prevê que o crescimento desacelere de 2,2% em 2026 para 1,9% em 2027, e o Boletim Focus projeta apenas 1,43%. Juros nesse patamar por mais tempo podem pesar sobre empresas e famílias, e o Brasil segue entre os maiores juros reais do mundo; na visão do mercado, enfrentar o fiscal é parte central da solução para que eles deixem de ser cronicamente elevados. Nesse ambiente, qualquer erro de condução pode ter impacto bastante negativo sobre os preços dos ativos domésticos. É por isso que ativos globais funcionam como contrapeso: stablecoins acompanham o dólar, e o Bitcoin, cotado internacionalmente, também tende a se valorizar em reais quando a moeda brasileira perde força, além de seguir sua própria dinâmica global.

Na prática, cripto oferece ao investidor três ferramentas que se completam neste novo cenário. As stablecoins trazem proteção cambial, com a facilidade de um mercado que não fecha. O Bitcoin entra como reserva de valor de longo prazo: escasso, com regras previsíveis escritas em código, sem ligação direta com a política brasileira e transferível para qualquer lugar do mundo com a facilidade da era digital. E a renda fixa digital aproveita os juros altos que devem durar mais tempo.
Dito isso, com o quarto mandato de Lula se confirmando em meio a desafios sem solução fácil, esperamos que mais investidores busquem essas alternativas, e os dados mostram que o cripto já é realidade para muitos brasileiros. Segundo a Receita Federal, o país movimentou R$ 283,1 bilhões em criptoativos no primeiro semestre de 2026, recorde da série histórica e alta de 21,3% sobre o mesmo período de 2025 . As stablecoins lideram esse avanço: somaram R$ 1,13 trilhão em operações declaradas entre 2019 e 2025 e hoje respondem por cerca de 80% do volume, ante 3,5% em 2019, com o USDT concentrando 88,7% delas. E o uso não se restringe a pessoas físicas: no terceiro trimestre de 2025, 4,7 milhões de pessoas e 100 mil empresas fizeram operações com cripto, e a tendência é que esses números sigam crescendo.