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Redação Redação
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A recompra de títulos do Tesouro americano, operação em que o governo dos EUA compra de volta a própria dívida antes do vencimento, vai dobrar de tamanho a partir de 9 de setembro. O anúncio, feito nesta quarta-feira (19), derrubou os juros dos papéis de 30 anos, que estavam na maior máxima em 19 anos, e reacendeu no mercado cripto a discussão sobre quanto suporte o sistema de dívida dos EUA precisa para funcionar. Entenda o mecanismo, por que ele não é QE (a política de estímulo monetário explicada mais abaixo) e onde entra a tese do Bitcoin.

O que o Tesouro dos EUA anunciou

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, órgão responsável por administrar as contas do governo americano e emitir a dívida do país, com função equivalente à do nosso Ministério da Fazenda, comunicou nesta quarta-feira (19) que vai ao menos dobrar o tamanho das operações de recompra de títulos de cupom nominal mais longos. O limite por operação sai de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões.

A mudança vale para dois trechos da curva de juros americana, a curva de juros é simplesmente o conjunto de taxas pagas pelos títulos de cada prazo, do mais curto ao mais longo:

  • títulos com vencimento entre 10 e 20 anos
  • títulos com vencimento entre 20 e 30 anos

O novo tamanho entra em vigor em 9 de setembro e vale até 4 de novembro, data da próxima reunião trimestral de refinanciamento (em inglês, quarterly refunding: o evento em que o Tesouro anuncia, a cada três meses, quanto pretende emitir de cada tipo de título no período seguinte). Na justificativa oficial, o Tesouro afirma que o aumento reflete a intenção de dar mais suporte de liquidez aos vencimentos longos, onde há demanda consistente dos participantes de mercado. Liquidez, aqui, quer dizer a facilidade de comprar ou vender um título rapidamente sem provocar grande variação no preço.

O que chamou atenção não foi apenas o valor. O anúncio veio no meio do trimestre, semanas antes da data em que esse tipo de ajuste costuma ser comunicado, e alterou um cronograma que o próprio Tesouro havia divulgado duas semanas antes.

O que é recompra de títulos do Tesouro (buyback)

Recompra de títulos, ou buyback, é a operação em que o Tesouro americano compra de volta papéis que ele mesmo emitiu, antes do vencimento.

O alvo são os títulos chamados off-the-run: emissões mais antigas, que já saíram do centro da negociação e passam a ser negociadas com menos liquidez do que os papéis recém-emitidos (estes são os on-the-run, que concentram o volume do mercado). Os dealers — bancos e corretoras autorizados a negociar diretamente com o Tesouro nas operações oficiais — oferecem esses títulos ao Tesouro, que recompra os que julgar adequados.

O objetivo declarado é de funcionamento de mercado: garantir que exista um comprador de referência para papéis pouco líquidos. O Tesouro americano opera esse programa de forma regular há cerca de dois anos.

Por que os juros longos dos EUA estavam subindo

Para entender a reação do mercado, é preciso olhar o que veio antes do anúncio.

Antes disso, uma mecânica que explica todo o resto: preço e rendimento de um título andam em direções opostas. Quando muita gente vende um título, o preço dele cai — e, como o valor pago no vencimento é fixo, quem compra mais barato passa a receber um retorno proporcionalmente maior. É por isso que “juros em alta” e “títulos em queda” descrevem o mesmo movimento. O rendimento, também chamado de yield, é esse retorno anual embutido no preço.

Na terça-feira (18), o rendimento do título de 30 anos do Tesouro americano bateu 5,34%, o maior nível desde 2007, máxima em 19 anos. A pressão vinha se acumulando havia semanas, por uma combinação de fatores:

  • Oferta pesada de papéis longos, com leilões seguidos de grande volume (leilão é o mecanismo pelo qual o Tesouro vende títulos novos: os investidores dizem que taxa aceitam receber, e o governo acaba pagando a taxa necessária para colocar todo o lote).
  • Inflação persistente: o CPI americano de julho ficou em 3,4%, acima da meta de 2% do Federal Reserve (o CPI é o índice de preços ao consumidor dos EUA, equivalente ao nosso IPCA; o Federal Reserve, ou Fed, é o banco central americano).
  • Deterioração fiscal: déficit federal de US$ 432,3 bilhões só em julho (déficit é o quanto o governo gastou além do que arrecadou no período), o maior déficit mensal desde março de 2021, com o ano fiscal se aproximando de US$ 1,8 trilhão (o ano fiscal americano não coincide com o calendário: começa em outubro e termina em setembro).
  • Custo da dívida: o gasto com juros já passou de US$ 1,1 trilhão no ano
  • Tensão geopolítica no Oriente Médio, com efeito sobre o preço do petróleo e sobre as expectativas de inflação

Somando participações intragovernamentais — dívida que o governo deve a fundos administrados por ele mesmo, como os da previdência americana —, a dívida pública total dos EUA estava em US$ 39,99 trilhões na segunda-feira, praticamente na marca simbólica dos US$ 40 trilhões.

Depois do anúncio, o rendimento de 30 anos caiu para cerca de 5,19%, na maior queda diária desde o fim de junho. O de 10 anos recuou de 4,68% para perto de 4,63%, mas devolveu grande parte do movimento ao longo da tarde. A diferença entre os dois reforça a leitura de que o efeito se concentrou justamente onde o Tesouro anunciou a atuação: na ponta longa da curva.

Recompra de títulos é a mesma coisa que QE?

Não. E a distinção é o ponto central para entender o que realmente aconteceu.

No quantitative easing (QE), em português, “flexibilização quantitativa”, quem compra é o Federal Reserve. O banco central expande seu balanço e cria reservas novas para adquirir títulos. Reservas são o dinheiro que os bancos comerciais mantêm depositado no banco central; quando o Fed cria reservas, ele está de fato adicionando moeda ao sistema, sem precisar arrecadar nada para isso. Entra dinheiro novo no sistema.

Na recompra do Tesouro, quem compra é o próprio Tesouro, usando recursos do mesmo programa de captação que financia todas as outras despesas, e esse programa se apoia fortemente na emissão de papéis de curto prazo (as T-bills, títulos com vencimento de até um ano). O Tesouro, diferente do banco central, não pode criar moeda: para recomprar um título longo, precisa antes captar esse dinheiro emitindo outro título.

O efeito líquido é uma troca de prazo, não uma injeção de liquidez: menos títulos muito longos nas carteiras privadas (ou seja, nas mãos de investidores, fora do governo), mais papel curto em circulação. Não há criação de moeda.

O tamanho também pede contexto. O aumento de US$ 2 bilhões por operação é pequeno diante de um mercado de dívida do Tesouro de US$ 32,2 trilhões, dos quais cerca de US$ 5,5 trilhões são títulos de 20 e 30 anos.

Então por que o mercado reagiu tanto? Porque a leitura foi menos sobre volume e mais sobre sinalização. Um ajuste fora do calendário, um dia depois de os juros longos atingirem máxima de 19 anos, comunica algo que a nota técnica não diz: existe um nível de juro longo a partir do qual o custo da dívida americana incomoda o suficiente para que alguém aja.

Por que a dívida dos EUA afeta o preço do Bitcoin

O Bitcoin subiu junto com a queda dos rendimentos, negociando na casa dos US$ 65 mil, com alta em torno de 1,3% em 24 horas.

A conexão é conceitual, não mecânica. A tese do Bitcoin como ativo de reserva, categoria que reúne os ativos comprados para preservar poder de compra ao longo do tempo, e não para uso no dia a dia, se apoia em uma premissa simples: a oferta é fixa, previsível e não depende de decisão política. No caso do Bitcoin, o limite de 21 milhões de unidades está escrito no próprio protocolo da rede. Quando o maior mercado de dívida do mundo precisa de suporte de liquidez para operar com estabilidade, essa característica ganha peso como argumento, e o mesmo raciocínio vale para o ouro, comparável natural nesse tipo de ambiente.

Vale, porém, não atribuir todo o movimento do dia a um único fator. Na mesma semana, a SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, com papel equivalente ao da CVM no Brasil, apresentou uma proposta de marco regulatório para ativos cripto, houve reunião entre a Casa Branca e representantes do setor, e o mercado aguardava a ata da última reunião do Fed (o documento, publicado semanas depois de cada decisão de juros, detalha o que os dirigentes discutiram e dá pistas sobre os próximos passos). Os fluxos de ETFs de Bitcoin à vista, fundos negociados em bolsa que compram Bitcoin de fato, em vez de contratos derivativos, seguem irregulares, e o índice de medo e ganância, indicador que resume o humor do mercado cripto numa escala de 0 a 100, continua em território de medo, na casa dos 40 pontos.

Em outras palavras: o cenário macro sustenta o argumento de longo prazo, mas o preço de um dia responde a várias coisas ao mesmo tempo.

O que observar daqui para frente

DataO que acontecePor que importa
9 de setembroNovo tamanho das operações entra em vigorO cronograma atualizado ainda será divulgado
24 de setembroPróxima operação já agendada para 20 e 30 anosPrimeiro teste prático do novo limite
4 de novembroReunião trimestral de refinanciamentoO Tesouro indica se mantém, amplia ou reverte

Além do calendário, dois indicadores merecem atenção. O primeiro é o comportamento do juro de 30 anos: se voltar a testar a região de 5,3% mesmo com recompras maiores, a leitura de que o suporte é insuficiente ganha força. O segundo é a marca dos US$ 40 trilhões de dívida, simbólica, mas com peso narrativo relevante.

A pergunta de fundo não é se essa medida específica vai mudar o rumo do mercado. Pelo tamanho, provavelmente não. É outra: se manter o funcionamento normal do mercado de dívida americano já exige ajustes fora do calendário, quanto suporte será necessário conforme o volume de emissões continuar crescendo? É nesse tipo de pergunta que a tese de ativos escassos encontra espaço.

Perguntas frequentes

O que é a recompra de títulos do Tesouro americano? É a operação em que o Tesouro dos EUA compra de volta títulos que já emitiu, antes do vencimento. O foco são papéis mais antigos e menos negociados, com o objetivo de dar liquidez a esses vencimentos.

Quanto o Tesouro vai recomprar a partir de setembro? O limite por operação sobe de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões, para títulos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos, com vigência de 9 de setembro a 4 de novembro.

Recompra de títulos é QE? Não. No QE, o Federal Reserve cria reservas novas para comprar títulos. Na recompra, o Tesouro usa recursos do próprio programa de captação, apoiado em papéis curtos. O resultado é uma troca de prazo, sem criação de moeda.

O que é o rendimento (yield) de um título? É o retorno anual embutido no preço do papel. Como o valor pago no vencimento é fixo, preço e rendimento se movem em direções opostas: se o título cai de preço, quem compra passa a ter um retorno maior, e é isso que se descreve como “alta dos juros”.

Por que os juros de 30 anos dos EUA subiram tanto? Por uma combinação de oferta elevada de títulos longos, inflação acima da meta, piora das contas públicas, custo crescente da dívida e tensão geopolítica.

Por que o Bitcoin sobe quando há estresse no mercado de dívida? Porque a tese do Bitcoin se baseia em oferta fixa e previsível, independente de decisão política. Em cenários que exigem suporte ao mercado de dívida, esse atributo ganha peso como argumento, o mesmo vale para o ouro. Isso não significa que a relação seja direta ou constante.


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