A Strategy, maior compradora de Bitcoin, vendeu. E agora?
Durante anos, a engrenagem da Strategy parecia previsível: a companhia captava capital, comprava Bitcoin de forma agressiva e impulsionava o preço para cima.
Até que, no dia 6 de julho, a empresa realizou sua maior venda até hoje, se desfazendo de 3.588 BTC por US$ 216 milhões.
Como o mercado estava acostumado apenas a acompanhar novas compras, a notícia de uma venda acendeu o alerta nos investidores.
Mas, quando olhamos os números de perto, percebemos que o impacto dessa operação é muito menor do que parece: a venda representou apenas 0,43% da posição total da empresa, que continua com 843.775 BTC em sua tesouraria, o equivalente a R$ 270 bilhões.
Isso representa 4,2% de toda a oferta circulante do Bitcoin.

Muitos se perguntam agora: a Strategy perdeu a confiança no Bitcoin ou estamos vendo apenas um ajuste na sua estrutura financeira?
A resposta direta é que a empresa não abandonou sua tese de longo prazo no Bitcoin. O que mudou foi sua gestão de caixa, e você vai entender exatamente o que isso significa na prática nas próximas páginas.
O que é a Strategy?
Fundada em 1989 por Michael Saylor, a Strategy nasceu originalmente como uma empresa de software corporativo. No entanto, a partir de agosto de 2020, uma decisão estratégica mudou para sempre o destino da companhia: adotar formalmente o Bitcoin como seu ativo primário de reserva de caixa.

Hoje, a Strategy é a líder absoluta entre as companhias listadas em bolsa, com uma reserva quase 19 vezes maior do que a segunda colocada no ranking.

Como a Strategy comprou tanto Bitcoin?
No início, a Strategy usou recursos do seu negócio de software, mas logo passou a captar capital no mercado para ampliar suas compras de Bitcoin.
No primeiro trimestre de 2026, a companhia reportou US$ 124 milhões em receita e US$ 83 milhões em lucro bruto. São números saudáveis, mas pequenos diante de uma reserva de Bitcoin que supera os US$ 50 bilhões.
Por isso, a Strategy transformou sua estrutura em uma máquina de captação no mercado de capitais tradicional por meio de quatro ferramentas:
- Ações ordinárias: as ações comuns da empresa (MSTR) negociadas na bolsa de valores americana;
- Dívidas conversíveis: empréstimos que podem virar ações em determinadas condições;
- Ações preferenciais: papéis que pagam dividendos ao investidor e criam compromissos recorrentes para a empresa;
- Instrumentos híbridos: produtos sob medida criados pela Strategy que misturam características de ações, dívidas e renda recorrente.

Ao longo dos anos, a companhia passou a depender menos de dívida conversível e mais de ações preferenciais, sendo a principal delas a STRC. Isso abriu novas fontes de captação, mas também aumentou os compromissos de pagamento.
STRC: a culpada pela venda de Bitcoin?
Podemos resumir que o principal fator que levou a Strategy a vender Bitcoin foi a necessidade de aumentar seu caixa em dólar.
Esse ponto é essencial para entender o funcionamento da empresa: embora ela tenha a maior parte do patrimônio em Bitcoin, os seus compromissos financeiros são pagos em moeda fiduciária. Hoje, o principal compromisso financeiro da Strategy está relacionado à STRC.
A STRC é uma ação preferencial da Strategy, criada para atrair investidores tradicionais que buscam receber dividendos (pagamentos recorrentes). Em troca desse rendimento, eles injetam o capital que a empresa usa para comprar mais Bitcoin.
Esse papel tem US$ 100 como valor de referência, mas seu preço flutua livremente no mercado de acordo com a oferta e a demanda.
A lógica é parecida com um vale-presente de R$ 100: se a loja é sólida, esse vale é negociado muito perto dos R$ 100 originais. Mas, se o mercado começa a duvidar da saúde financeira da loja, as pessoas só aceitam comprar esse mesmo vale se houver um desconto, pagando, por exemplo, R$ 90 por ele.
Com a STRC é a mesma coisa: quando o preço do papel cai muito abaixo de US$ 100, o mercado sinaliza que enxerga mais risco na operação e exige mais retorno para continuar financiando a Strategy.
No final de junho, a STRC atingiu uma mínima próxima de US$ 70, mas voltou a subir para os atuais US$ 87 depois que a Strategy vendeu Bitcoin.

O que explica a queda da STRC?
O principal gatilho foi a correção do Bitcoin e, consequentemente, das ações ordinárias da Strategy (MSTR), uma vez que grande parte do valor da empresa está ligado ao BTC.
Esse receio aumentou porque a reserva líquida em dólar da Strategy também havia caído de forma relevante, chegando a US$ 900 milhões em junho. Para uma instituição com compromissos recorrentes de dividendos, um caixa menor em dólar eleva a percepção de risco por parte dos investidores.
Foi essa combinação de queda do Bitcoin, pressão sobre as ações e redução da liquidez em dólar que ajudou a levar a STRC para abaixo dos US$ 100 de referência.
Diante desse cenário, a venda de Bitcoin funcionou como uma vacina financeira: a Strategy transformou apenas 0,43% do seu estoque de BTC em dólar para aumentar a confiança na STRC e provar ao mercado que a empresa tem fôlego para atravessar momentos de baixa.
O novo plano da Strategy
Para lidar com esse desafio de forma mais previsível, a Strategy anunciou em junho um novo conjunto de políticas chamado Estrutura de Capital de Crédito Digital.
Uma dessas medidas é o programa de monetização de Bitcoin, que passou a permitir que a Strategy venda até US$ 1,25 bilhão em BTC (algo próximo de 20 mil BTC), para reforçar seu caixa. Na sua última venda, a Strategy já usou cerca de 17% desse limite.
Outra obrigação estabelecida foi manter em caixa dólar suficiente para cobrir, no mínimo, 12 meses de pagamentos de dividendos.
Em 28 de junho, a Strategy informou que sua reserva líquida em dólar saltou para US$ 2,5 bilhões, enquanto os dividendos e juros que tem o compromisso anual de pagar eram de aproximadamente US$ 1,76 bilhão.
Ou seja, a Strategy tem hoje uma cobertura de 17,4 meses de pagamentos garantidos, que lhe permite operar com uma folga mais confortável.
Strategy coloca o Bitcoin em risco?
As vendas da Strategy não parecem ter um impacto direto no livro de ofertas do Bitcoin.
Mesmo que a Strategy venda o seu limite estabelecido de US$ 1,25 bilhão em BTC, esse volume ainda seria pequeno perto dos US$ 50 bilhões que possui atualmente, e ainda menor quando olhamos para o mercado do Bitcoin como um todo, avaliado hoje em US$ 1,2 trilhão.
O risco maior é psicológico: durante anos, a Strategy era vista como compradora estrutural. Agora, o mercado precisa aceitar que, em algumas condições, ela também pode vender.
A comparação com Mt. Gox ajuda a dar escala.
A Mt. Gox foi uma das maiores corretoras de Bitcoin no começo do mercado. Em 2014, ela quebrou após perder 850 mil BTC em um ataque hacker, algo próximo de 7% da oferta do ativo na época. Por isso, durante anos, o mercado teve medo de que os reembolsos aos antigos clientes criassem uma grande pressão de venda.
Não foi o que aconteceu. Desde julho de 2024, a Mt. Gox distribuiu cerca de 95,5 mil BTC aos credores – volume quase 5 vezes maior que a venda potencial da Strategy. Mesmo assim, o mercado absorveu essa oferta sem comprometer aquele ciclo de alta do Bitcoin, que atingiu US$ 100 mil pela primeira vez no final de 2024.
Hoje, o mercado de Bitcoin é ainda mais líquido, mais institucional e mais capaz de absorver choques de oferta do que na época da Mt. Gox.
A última venda de Bitcoin da Strategy foi prova disso, sendo absorvida rapidamente pelos investidores de longo prazo, conhecidos por acumular ativos na contramão do pânico. Entre os dias 2 e 8 de julho, esse grupo comprou cerca de 40 mil BTC.
Esse dado coloca o tamanho da “ameaça” da Strategy em perspectiva: as compras desse grupo em apenas uma semana representam o dobro de todo o volume que a empresa está autorizada a vender (20 mil BTC) em seu novo plano.

Existe um lado positivo na venda de Bitcoin?
Sim, por mais contraintuitivo que pareça.
A venda pontual ajuda a restaurar a confiança dos investidores na estrutura de financiamento da companhia e reduz um perigo muito maior: o de as contas da Strategy não fecharem e ela ser obrigada a liquidar parcelas ainda maiores de Bitcoin no futuro.
Ao reforçar o caixa em dólar, a empresa ganha mais fôlego. Para o ecossistema cripto, uma Strategy líquida e resiliente é muito mais segura do que uma Strategy presa à narrativa utópica de “nunca vender”, mas financeiramente frágil por dentro.
Ou seja, a venda de hoje pode preservar a capacidade de novas compras amanhã.
O que fazer daqui pra frente?
Após entender o contexto, é preciso separar o jogo: a Strategy administra uma estrutura complexa de dívidas e acionistas, precisando vender pequenas frações de BTC para manter sua engrenagem rodando. Para você, investidor de varejo, a tese de longo prazo do Bitcoin não mudou em nada.
Os fundamentos do ativo continuam intactos: escassez programada, descentralização e adoção institucional crescente. Por isso, momentos de volatilidade e desconto costumam ser as melhores janelas de oportunidade.
Na nossa avaliação, faz sentido considerar um ritmo de acumulação mais forte à medida que o Bitcoin flutua entre US$ 59 mil e US$ 63 mil, especialmente para quem foca no longo prazo. Há diversos sinais de que o ativo voltou para uma região de preço atrativa em relação ao seu ciclo.
Para atravessar esse cenário com inteligência, a melhor ferramenta é o DCA (Dollar Cost Averaging). Essa estratégia consiste em fazer compras fracionadas e regulares (toda semana ou todo mês), sem tentar adivinhar o fundo do mercado. Se o preço do Bitcoin cair, seu preço médio melhora; se subir, você já garantiu sua posição.
A decisão mais equilibrada agora não é se assustar com manchetes, mas acumular aos poucos, com disciplina e respeitando seu perfil de risco.
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