{"id":6572,"date":"2023-03-23T08:00:00","date_gmt":"2023-03-23T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.mercadobitcoin.com.br\/blog\/?p=6572"},"modified":"2023-03-29T09:14:42","modified_gmt":"2023-03-29T12:14:42","slug":"lelia-gonzalez-luta-contra-o-racismo-estrutural-ao-racismo-digital-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mercadobitcoin.com.br\/blog\/tecnologia\/lelia-gonzalez-luta-contra-o-racismo-estrutural-ao-racismo-digital-atual\/","title":{"rendered":"L\u00e9lia Gonzalez: da luta contra o racismo estrutural ao racismo digital atual"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 08 de mar&ccedil;o, comemoramos o Dia Internacional das Mulheres, data que marca o s&iacute;mbolo das conquistas das mulheres no s&eacute;culo XX. E, no &uacute;ltimo dia 1&ordm; de fevereiro, seria o 88&ordm; anivers&aacute;rio de L&eacute;lia Gonzalez, por isso, resolvi escrever este post contando um pouco sobre a hist&oacute;ria dessa grande mulher negra brasileira e sua import&acirc;ncia na luta contra o racismo e o sexismo.<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/fMlhADVEzwQQ1hjQ0tcm0IEN1J9tUOPKGsEaiy_tTF8KtAjxZmucGfMOsAa5airfn9tjwxwJjV4DLhe6VxswqAD226izL5jwVkaGdnbt5xUiQLZCjIYMbpwwcZsmFPeKlp7yhi-_tucLUCvqDkaw28s\" alt=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">L&eacute;lia Gonzalez em foto de 1988. Imagem: Divulga&ccedil;&atilde;o\/Projeto L&eacute;lia Gonzalez Vive.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><h2 class=\"wp-block-heading\">E quem foi L&eacute;lia?<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo quem estuda e participa de a&ccedil;&otilde;es de diversidade e inclus&atilde;o pode ainda n&atilde;o conhec&ecirc;-la ou estar come&ccedil;ando a estudar essa mulher t&atilde;o importante da hist&oacute;ria recente brasileira.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O interesse e a procura pelos trabalhos de L&eacute;lia aumentaram quando Angela Davis, estadunidense e uma das mais importantes feministas negras e intelectuais de nossa atualidade, teve a oportunidade de visitar o Brasil em 2019 e discursar sobre o assunto, no qual ela disse: <em>&ldquo;Eu me sinto estranha quando sinto que estou sendo escolhida para representar o feminismo negro. E por que aqui no Brasil voc&ecirc;s precisam buscar essa refer&ecirc;ncia nos Estados Unidos? Eu acho que aprendo mais com L&eacute;lia Gonzalez do que voc&ecirc;s poderiam aprender comigo.&rdquo;<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Nascida em 1935, em Belo Horizonte, Minas Gerais, L&eacute;lia Gonzalez se formou em Hist&oacute;ria e Filosofia pela ent&atilde;o UEG (Universidade do Estado da Guanabara), atualmente UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), e foi professora de Cultura Brasileira na PUC-Rio, tornando-se, posteriormente, chefe do departamento de Sociologia e Pol&iacute;tica da mesma universidade no mesmo ano de seu falecimento, 1994.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">L&eacute;lia tamb&eacute;m foi a 17&ordf; filha de um pai ferrovi&aacute;rio e uma m&atilde;e de origem ind&iacute;gena, que mudou de Minas Gerais para o Rio de Janeiro junto com sua fam&iacute;lia quando seu irm&atilde;o, Jaime, recebeu uma proposta para jogar futebol em um time do estado. Teve a oportunidade de estudar pelo custeio dos empregadores das casas em que sua m&atilde;e trabalhava como empregada dom&eacute;stica.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Cunhadora de termos e conceitos como &ldquo;amefricanidade&rdquo;, L&eacute;lia foi precursora do conceito de &ldquo;interseccionalidade&rdquo;. Em uma &eacute;poca em que se lutavam pelas quest&otilde;es raciais majoritariamente para homens negros e pelas quest&otilde;es de igualdade de g&ecirc;nero majoritariamente para mulheres brancas, foi ela quem come&ccedil;ou a trazer esses dois debates para os mesmos f&oacute;runs, evidenciando a import&acirc;ncia de entender que mulheres negras sofriam mais por n&atilde;o serem consideradas em sua completude por nenhum dos dois movimentos de luta por igualdade.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Entre muitos de seus envolvimentos em movimentos sociais, ela ajudou na funda&ccedil;&atilde;o do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), do Coletivo de Mulheres Negras N&rsquo;Zinga, na escola de tambores afro-brasileira Olodum, al&eacute;m de ter sido cofundadora do Movimento Unificado Contra a Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial (MUCDR), que, posteriormente, tornou-se o Movimento Negro Unificado (MNU).<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\">MNU (Movimento Negro Unificado)<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">L&eacute;lia Gonzalez, em conjunto com outros l&iacute;deres e pensadores brasileiros entre as d&eacute;cadas de 1970 e 1990, tamb&eacute;m ajudou a resgatar a import&acirc;ncia dos negros e ind&iacute;genas na hist&oacute;ria brasileira, sendo ela uma das l&iacute;deres da Marcha Contra a Farsa da Aboli&ccedil;&atilde;o, pelo Movimento Negro Unificado (MNU), realizada em 11 de Maio de 1988, 2 dias antes da celebra&ccedil;&atilde;o dos 100 anos de promulga&ccedil;&atilde;o da Lei &Aacute;urea, que p&ocirc;s (ou deveria ter posto) fim &agrave; escravid&atilde;o no Brasil.<\/p><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/EHjJH0B4s0dClcx3gA4QpCH_rWdE2qFRRjRfMfHPJPXHiOD3bZTqrDCog7ASyrdXwUxrphtuy3A5nUfH58H-7YD2JtoeeOD6FoHCOVxUCKn72U6kSSQ8BenKXf73ypYGtW3gnYLoMbGNKpENrb52XSE\" alt=\"\"><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Cartaz da manifesta&ccedil;&atilde;o<\/strong>. Autor: Luiz Carlos G&aacute;. 1988. Acervo: PACC\/UFRJ. Pasta Rela&ccedil;&otilde;es Raciais, cole&ccedil;&atilde;o Centen&aacute;rio da Aboli&ccedil;&atilde;o.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><p class=\"wp-block-paragraph\">A Marcha foi um grito contra o racismo, uma defesa das tradi&ccedil;&otilde;es e culturas afro-brasileiras e uma luta pelo direito &agrave; mem&oacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o negra, na qual foram eleitos o Zumbi dos Palmares e a data de sua morte, 20 de novembro, como s&iacute;mbolos hist&oacute;ricos da luta do povo negro no Brasil. L&eacute;lia defendia que Palmares, organizado no s&eacute;culo XVII por negros, ind&iacute;genas e at&eacute; brancos que fugiam de condi&ccedil;&otilde;es de escravos ou de extrema precaridade e conviviam em comunidade, teria sido, segundo ela, o primeiro estado livre das Am&eacute;ricas.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\">Representatividade<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecida por cunhar o termo e utilizar o &ldquo;Pretugu&ecirc;s&rdquo;, dialeto brasileiro, segundo L&eacute;lia, resultado da mistura das culturas africanas e da l&iacute;ngua portuguesa, em seus discursos e materiais acad&ecirc;micos como forma de refor&ccedil;ar a import&acirc;ncia de exaltar as culturas afro-latino-americanas e tornar acess&iacute;vel seus pensamentos ao povo negro brasileiro, L&eacute;lia escreveu o discurso a seguir, no qual ela ressalta a import&acirc;ncia do &ldquo;lugar de fala&rdquo;, termo bastante debatido e trabalhado por outra importante fil&oacute;sofa de nossa atualidade, Djamila Ribeiro, que faz refer&ecirc;ncia &agrave; import&acirc;ncia da representatividade na constru&ccedil;&atilde;o da igualdade racial e de g&ecirc;nero.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>&ldquo;Cum&eacute; que a gente fica?&rdquo;<\/em><\/strong><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&ldquo;Foi ent&atilde;o que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente tamb&eacute;m. Neg&oacute;cio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda considera&ccedil;&atilde;o. Chamaram at&eacute; pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado.<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar l&aacute; na mesa. S&oacute; que tava cheia de gente que n&atilde;o deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atr&aacute;s deles.<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eles tavam t&atilde;o ocupados, ensinando um monte de coisa pro criol&eacute;u da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco at&eacute; que dava pra abrir um espa&ccedil;ozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foi eles que fizeram, e a gente n&atilde;o podia bagun&ccedil;ar com essa de chega pra c&aacute;, chega pra l&aacute;. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Foi a&iacute; que a neguinha que tava sentada com a gente deu uma de atrevida. Tinham chamado ela pra responder uma pergunta. Ela se levantou, foi l&aacute; na mesa pra falar no microfone e come&ccedil;ou a reclamar por causa de certas coisas que tavam acontecendo na festa. Tava armada a quizumba.<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A negrada parecia que tava esperando por isso pra bagun&ccedil;ar tudo. E era um tal de falar alto, gritar, vaiar, que nem dava mais pra ouvir discurso nenhum. T&aacute; na cara que os brancos ficaram brancos de raiva e com raz&atilde;o. Tinham chamado a gente pra festa de um livro que falava da gente, e a gente se comportava daquele jeito, catimbando a discurseira deles.<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Onde j&aacute; se viu? Se eles sabiam da gente mais do que a gente mesmo? Teve uma hora que n&atilde;o deu pra aguentar aquela zoada toda da negrada ignorante e mal-educada. Era demais. Foi a&iacute; que um branco enfezado partiu pra cima de um crioulo que tinha pegado no microfone pra falar contra os brancos. E a festa acabou em briga&hellip;<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Agora, aqui pra n&oacute;s, quem teve a culpa? Aquela neguinha atrevida, ora. Se n&atilde;o tivesse dado com a l&iacute;ngua nos dentes&hellip; Agora t&aacute; queimada entre os brancos. Malham ela at&eacute; hoje. Tamb&eacute;m quem mandou n&atilde;o saber se comportar? N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que eles vivem dizendo que &lsquo;preto quando n&atilde;o caga na entrada caga na sa&iacute;da&rsquo;&hellip;&rdquo;<\/em><\/p><h2 class=\"wp-block-heading\">Racismo digital<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto idealizava este conte&uacute;do, tive a oportunidade de ler a mat&eacute;ria &ldquo;Racismo digital: como o preconceito nos algoritmos reproduz comportamentos humanos&rdquo;, publicada no peri&oacute;dico <strong>Mundo Negro <\/strong>no dia 24 de fevereiro deste ano, no qual Rodrigo Faustino evidencia dados relevantes sobre como algoritmos de sistemas podem favorecer ou apontar para problemas gerados pelo racismo estrutural.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Faustino, <em>&ldquo;&hellip; As novas tecnologias e a alta demanda do mercado por novos produtos intensificou a utiliza&ccedil;&atilde;o de recursos que adotam medidas que favorecem a branquitude&rdquo;<\/em>, usando como exemplo o <em>&ldquo;&hellip; impacto quando utilizamos alguma plataforma de busca na internet, ao pesquisar a palavra fam&iacute;lia, os primeiros resultados da busca, ou seja, os mais clicados, s&atilde;o sempre de pessoas brancas, evidenciando como existe uma l&oacute;gica de n&atilde;o associa&ccedil;&atilde;o de pessoas negras ao conceito de fam&iacute;lia&rdquo;<\/em>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O autor da mat&eacute;ria apresenta dados para ressaltar esse favorecimento como: <em>&ldquo;De acordo com o levantamento realizado pela Defensoria P&uacute;blica do Rio de Janeiro, juntamente com o Col&eacute;gio Nacional de Defensores P&uacute;blicos Gerais, foram realizadas 90 pris&otilde;es injustas entre os anos de 2012 a 2020 por meio de reconhecimento facial. O levantamento ainda afirmou que 81% dos registros que contavam com informa&ccedil;&otilde;es sobre a ra&ccedil;a dos acusados, se tratavam de pessoas negras.&rdquo;<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E ele conclui com a seguinte frase: <em>&ldquo;Pode parecer dif&iacute;cil perceber como o racismo algor&iacute;tmico atua, mas, de maneira impl&iacute;cita e sutil, ele refor&ccedil;a uma vis&atilde;o de mundo que influencia diretamente a sociedade. Os comandos autom&aacute;ticos das m&aacute;quinas e as linhas de programa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o constru&iacute;dos por m&atilde;os humanas, portanto, importando para dentro do mundo tecnol&oacute;gico a vis&atilde;o de cada ser humano perante &agrave; sociedade.&rdquo;<\/em><\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">&Eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o tra&ccedil;ar um paralelo entre essa an&aacute;lise de Faustino e a vis&atilde;o da import&acirc;ncia da representatividade, compartilhando o lugar &agrave; mesa para negros, principalmente mulheres negras, trazida &agrave; luz por L&eacute;lia Gonzalez, a fim de vencermos o racismo. Ela n&atilde;o teve a oportunidade de viver e conhecer o mundo digital que experienciamos e constru&iacute;mos hoje. Por&eacute;m, &eacute; ineg&aacute;vel que, mesmo n&atilde;o existindo esse mundo digital ainda em seu tempo, L&eacute;lia j&aacute; sabia que n&atilde;o seria poss&iacute;vel criar uma sociedade justa e igualit&aacute;ria, at&eacute; mesmo digital, sem a vis&atilde;o de mundo de cada participante em sua constru&ccedil;&atilde;o.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\">Pangeia<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Recebi a oportunidade de escrever este texto representando nosso Grupo de Afinidade &Eacute;tnico-Racial do Mercado Bitcoin, o <strong>Pangeia<\/strong>, criado em 2022. Escolhemos esse nome para o grupo por representar o tempo em que a terra era um &uacute;nico continente, todo unido, sem fronteiras territoriais.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vemos a oportunidade de discutir os temas &eacute;tnicos-raciais dentro de nossa empresa, assim como as possibilidades de a&ccedil;&otilde;es de inclus&atilde;o e diversidade, sempre com a vis&atilde;o de unificar e derrubar barreiras, por&eacute;m, respeitando a pluralidade, diferen&ccedil;as culturais e, principalmente, com o intuito evidenciar assuntos que, muitas vezes, passam despercebidos em nosso dia a dia, muito por conta de vieses inconscientes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos que temos muito a melhorar &ndash; e essa consci&ecirc;ncia &eacute; o que nos motiva na constru&ccedil;&atilde;o de pessoas mais inclusivas e comunidades mais diversas, com oportunidades mais iguais.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 08 de mar&ccedil;o, comemoramos o Dia Internacional das Mulheres, data que marca o s&iacute;mbolo das conquistas das mulheres no s&eacute;culo XX. 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